Como o Câncer Infantil Afeta a Saúde Mental de Crianças e Famílias
Quando um médico diz “é câncer”, o tempo desacelera... A infância, que deveria ser feita de escola, brincadeiras e projetos de futuro, passa a girar em torno de exames, internações e incertezas.
Para além dos efeitos no corpo, impacta o emocional das crianças e adolescentes em tratamento e de toda a família.
1. O que é câncer infantojuvenil
Acomete crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em termos médicos, é um grupo de neoplasias malignas, isso significa um crescimento descontrolado de células que podem formar tumores e, em alguns casos, se espalhar para outras partes do corpo (processo chamado de metástase).
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou que, entre 2023 e 2025, ocorreram quase 8.000 novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano. (Revista Brasileira de Cancerologia)
Um levantamento divulgado pelo Instituto Ronald McDonald, a partir dos dados oficiais do INCA, mostra ainda que:
-> o câncer é a doença que mais acomete crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos;
-> a chance média de cura no Brasil gira em torno de 64%, mas varia conforme a região (em países de alto IDH, pode chegar a 80%).
2. Impactos psicológicos do câncer durante o tratamento
2.1 Medo, ansiedade e a pergunta: “eu vou melhorar?”
Pesquisas recentes sobre o impacto psicossocial do câncer infantil mostram que o diagnóstico impõe uma carga emocional intensa de ansiedade, medo e sensação de incerteza aparecem logo no início e acompanham toda a jornada.
Crianças e adolescentes:
- Têm medo da morte, ainda que nem sempre consigam colocar isso em palavras.
- Sentem-se ameaçados pelos procedimentos dolorosos, pela quantidade de exames e pelas internações.
- Vivem uma constante ansiedade em relação ao futuro: “Vou voltar para a escola?”, “Vou ver meus amigos?”, “Vou poder brincar de novo?”.
Um estudo de 2024 que revisou a literatura sobre o tema, ressalta que o câncer infantojuvenil desencadeia questões emocionais complexas que impactam diretamente o desenvolvimento psicológico, exigindo da criança uma maturidade que muitas vezes ainda não teve tempo de construir.
2.2 Autoestima: corpo em transformação e identidade em construção
-> O tratamento oncológico pode causar:
- queda de cabelo;
- alterações de peso;
- cicatrizes cirúrgicas;
- mudanças na cor da pele ou inchaços.
Para uma criança e, principalmente, para um adolescente, fase em que a identidade e a imagem corporal estão em plena construção essas mudanças podem gerar:
- vergonha do próprio corpo;
- baixa autoestima;
- evitação de fotos, espelhos, encontros sociais;
- sentimento de ser “diferente de todo mundo”.
O resultado muitas vezes é um afastamento das interações sociais, justamente quando o contato com amigos poderia ser uma grande fonte de apoio.
2.3 Isolamento social e escolar
As internações prolongadas e a baixa imunidade fazem com que muitas crianças e adolescentes precisem se afastar da escola e de ambientes com aglomerações. A literatura aponta que esse afastamento gera:
- interrupção do processo de aprendizagem;
- perda de convivência com colegas;
- sensação de solidão e “vida em pausa”;
- medo de não conseguir acompanhar a turma quando retornarem.
O retorno à escola, quando possível, também é delicado, já que alguns colegas podem não entender a doença, fazer perguntas invasivas ou até comentários maldosos, o que aumenta a ansiedade e o medo de rejeição.
2.4 Procedimentos, dor e perda de controle
-> A rotina do tratamento inclui:
- punções;
- quimioterapia;
- exames invasivos;
- muitas vezes cirurgias e radioterapia.
Cada procedimento pode ser vivido como uma ameaça, especialmente as crianças pequenas, que podem não entender por que precisam “passar por aquilo” repetidas vezes. Sem uma explicação adequada à idade, é comum surgirem fantasias e medos ainda maiores.
Estudos na área mostram que, quando profissionais e família usam linguagem lúdica (brinquedos, desenhos, histórias) para explicar o que vai acontecer, o nível de ansiedade diminui significativamente.
3. Depois do tratamento
Quando a fase mais intensa de tratamento termina e a criança ou o adolescente recebe alta, todos esperam viver apenas a alegria da “cura”. Mas, na prática, o que muitas famílias descrevem é um tempo de paz incerta: o tratamento acaba, mas o medo de o câncer voltar permanece.
-> Pesquisas com pais e mães de sobreviventes de câncer infantil mostram que:
- eles vivem como se estivessem “entre guerras e uma paz que pode não durar”;
- cada exame de controle traz de volta a ansiedade do diagnóstico;
- existe medo diante de qualquer febre, dor ou sintoma novo.
-> Para a criança e o adolescente, o pós-tratamento também traz desafios:
- reconstruir a rotina escolar depois de meses ou anos afastados;
- lidar com possíveis sequelas físicas (como limitações de movimento, dificuldades cognitivas ou fadiga intensa);
- responder às perguntas sobre o que aconteceu;
- ressignificar a identidade: “eu sou só alguém que teve câncer?”
-> Sem acompanhamento psicológico adequado, essa fase pode vir acompanhada de:
- sintomas de ansiedade e depressão;
- dificuldade de projetar o futuro (escolher profissão e sonhar com a vida adulta);
- conflitos na relação com o próprio corpo.
4. Impactos emocionais na família
O câncer nunca atinge apenas uma pessoa: ele atravessa toda a rede familiar. A mesma revisão de 2024 sobre impacto psicossocial do câncer infantil destaca que o diagnóstico gera uma intensa sobrecarga psicológica em pais e cuidadores, marcada por desespero, impotência, culpa e estresse contínuo.
4.1 Pais e mães: entre a luta pela vida e o medo de perder
Os pais relatam um verdadeiro choque a partir do diagnóstico. Tudo passa a acontecer muito rápido e decisões difíceis precisam ser tomadas.
Tantas mudanças, todas de uma vez, acabam sendo acompanhadas pela sensação constante de que qualquer escolha "errada” pode ser prejudicial, resultando no aumento do peso emocional.
Somada a essa carga, a rotina hospitalar intensa com consultas, internações e exames leva a uma exaustão física e emocional profunda.
Além disso, a economia da casa muda radicalmente. Em muitos casos, um dos responsáveis precisa reduzir a carga horária ou até abandonar o emprego para acompanhar o filho nos atendimentos, enquanto as despesas com transporte, alimentação e outros custos relacionados ao tratamento acabam só aumentam.
Não é raro que um dos pais se mude temporariamente para ficar perto do hospital de referência, enquanto o outro permanece na cidade de origem, mantendo o emprego, a casa e em alguns casaos, os irmãos.
Essa separação fragmenta o núcleo familiar e aumenta a sensação de solidão em todos os envolvidos, que precisam se adaptar a uma nova forma de viver, marcada pela saudade, preocupação e pela incerteza do amanhã.
4.2 Irmãos: ciúme, medo e saudade
Quando um irmão precisa se afastar para tratar um câncer, muitas vezes em outra cidade, a criança ou adolescente que fica em casa vive separações prolongadas marcadas por saudade, medo e confusão.
Ao mesmo tempo, a atenção dos adultos se volta, inevitavelmente, para a criança em tratamento, o que pode fazer os irmãos se sentirem menos vistos, mesmo que a família esteja fazendo o melhor que pode.
Nesse cenário, é comum surgirem o medo de perder o irmão, dúvidas sobre a doença e fantasias em relação à morte e à própria segurança. Quando esses sentimentos não são acolhidos e explicados com carinho e clareza, eles tendem a crescer por dentro.
Sem espaço para falar do que sentem, muitos irmãos passam a expressar esse sofrimento de outras formas, podendo tornarem-se agressivos ou, ao contrário, mais quietos e retraídos. Há casos em que o irmão apresenta queda no rendimento escolar, começa a ter dores e enjoos sem causa orgânica aparente, que revelam o peso emocional que estão carregando.
4.3 Nem todas as histórias terminam com a cura.
Após meses ou anos de dedicação intensa, quando o tratamento não funciona e as famílias enfrentam o luto, é comum que pais e irmãos carreguem uma culpa que não lhes pertence.
Muitas não se sentem compreendidas e se isolam por terem dificuldade em falar sobre a perda ou ouvir frases prontas de consolo. Esse isolamento, somado ao trauma da perda, gera impactos profundos e duradouros.
Por isso, organizações como OPAS e OMS reforçam a importância dos cuidados paliativos pediátricos desde o diagnóstico, não apenas no fim da vida.
Esses cuidados aliviam o sofrimento físico, emocional e espiritual da criança e da família, reduzem a dor, acolhem o medo, apoiam o luto e garantem que, mesmo na perda, essa história seja atravessada por dignidade, presença e amor.
5. O que a ciência recomenda em termos de cuidado psicossocial
A boa notícia é que sabemos o que ajuda os pacientes e suas famílias a atravessarem esse período com menos sofrimento.
A literatura científica aponta como fundamentais:
-> Comunicação clara e adequada à idade, explicando o câncer e o tratamento com palavras simples, desenhos e recursos lúdicos.
-> Não esconder a situação, mas ajustar a informação à capacidade de compreensão da criança.
Apoio psicológico especializado:
Psicólogos que utilizam terapia através do brincar, técnicas de relaxamento e expressão de emoções. Em adolescentes, terapia e acompanhamento dos familiares.
Ambientes acolhedores: Espaços que permitam brincar, estudar e conviver com outras famílias que vivem realidades parecidas. Grupos de apoio que diminuem o isolamento e ajudam a compartilhar medos e estratégias.
Vínculo com a escola: Adaptação da rotina escolar com atividades domiciliares ou on-line. Sensibilização da comunidade para receber o estudante com respeito e acolhimento.
Cuidados paliativos desde cedo: Não significa "desistir", mas priorizar qualidade de vida: controle de sintomas, cuidado com a dor e suporte emocional e espiritual.
6. Acolhimento na Domus
A Domus existe para transformar o cenário de medo e incerteza em cuidado, presença e apoio contínuo.
- Não recebe apoio governamental
- Acompanha crianças e adolescentes em tratamento oncológico e no pós-tratamento, bem como suas famílias
- Mantém o vínculo mesmo quando o tratamento termina inclusive nos casos de óbito.
Na prática, oferece suporte:
Psicológico e psicossocial: Escuta especializada para crianças, adolescentes, pais e irmãos.
Financeiro: Custeio de medicamentos, exames, consultas com especialistas e outros gastos relacionados ao tratamento.
Material: Alimentos, materiais escolares, produtos de higiene e limpeza, roupas, calçados e melhorias nas residências.
Tudo isso enquanto mantém suas despesas fixas (água, luz, internet, salários, manutenção da sede) em dia. Com o aumento dos diagnósticos e das demandas, cada novo apoiador faz diferença direta na vida de uma criança.
💛 Obrigada por chegar até aqui.
Só de ler, se informar e compartilhar esse conteúdo, você já está ajudando a mudar a realidade do câncer infantojuvenil na Serra Gaúcha. Se puder dar o próximo passo com o Carnê Solidário, com a doação de materiais plásticos, roupas para o brechó ou com qualquer forma de apoio você passa a fazer parte, de forma muito concreta, desse compromisso com a vida.
7. Fontes consultadas:
INCA – Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil (câncer infantojuvenil). Disponível em:
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa/estado-capital/brasil/cancer-infantojuvenil (Serviços e Informações do Brasil)
Instituto Ronald McDonald. INCA estima mais de 7 mil novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano até 2025. Disponível em:
https://institutoronald.org.br/inca-estima-mais-de-7-mil-novos-casos-de-cancer-em-criancas-e-adolescentes-por-ano-ate-2025/ (Instituto Ronald McDonald)
Pereira CIP et al. Impactos Psicossociais e na Qualidade de Vida do Tratamento Oncológico em Crianças e Adolescentes. Revista Brasileira de Cancerologia, 2023. Disponível em:
https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/3888 (Revista Brasileira de Cancerologia)
Macedo MLM dos S et al. Impacto Psicossocial do Câncer Infantil: Intervenções de Apoio à Criança e à Família. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, 2024. Disponível em:
https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/3839 (Jornal de Implantologia e Saúde)
OPAS/OMS. Módulos em Cuidados Paliativos Pediátricos – Série Qualidade de Vida para Crianças com Câncer. Disponível em:
https://www.paho.org/pt/modulos-em-cuidados-paliativos-pediatricos (Opas)
Instituto Desiderata. Panorama da Oncologia Pediátrica. Disponível em:
https://panoramadaoncologia.desiderata.org.br/ (panoramadaoncologia.desiderata.org.br). Acesso em: 09 de fevereiro de 2026.